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30 de dez de 2010

A Rede Social (2010)

Recentemente revi Clube da Luta (1999) – o quarto filme do americano David Fincher que começou no cinema com a ficção científica Alien 3 (1992) – e constatei: esse é realmente uns dos melhores filmes da década passada. Seu filme contemporâneo, explosivo e empolgante fizeram os críticos e cinéfilos prestarem mais atenção no cineasta que já surpreendera com o ótimo Se7en - Os Sete Crimes Capitais (1995). Foi com O Curioso Caso de Benjamin Button que o cineasta entrou nas premiações mais importantes do mercado. O filme recebeu 11 indicação ao Oscar, mas a Academia não resistiu aos encantos de Quem Quer Ser Um Milionário?

Dois anos após o lançamento de Benjamin Button saio do cinema depois da sessão do novo filme de David Fincher sem me decepcionar. O interessante A Rede Social deixa a impressão que Fincher deve ter o ego grande e está louco para ser premiado pela academia. Fincher se entregou à ambição das produtoras de cinema? Seria errado apostar que seus próximos trabalhos terão um grande apelo comercial mesmo que acabem sendo películas de qualidade? Não é o que o Spielberg faz hoje?

Logo no começo da trama escrita por Aaron Sorkin com base no livro de Ben Mezrich o espectador já se apega a uma antipatia por Mark Zuckerberg. Na tela ele é o cara que tem passos apressados e mistura assuntos enquanto fala rapidamente; pouco se importa com relacionamentos e isso fica evidente também no início do longa. Ou seja, ele tem um perfil de um gênio: excêntrico, perfeccionista e, principalmente, egoísta. No entanto essa imagem que construímos ao longo da projeção some no último diálogo, em seu lugar fica a interrogação. Mark Zuckerberg é mesmo o vilão ou ele quer que todos os holofotes estejam nele? Pior, será que ele é realmente um ladrão de ideias? E fica nessa de tentar entender a personalidade ambígua de Mark.

Sem a aprovação do Mark real, sua versão é desconhecida e o filme caminha à base de incertezas, mas David Fincher se revela um mestre em dirigir essas incertezas. A Rede Social narra a versão dos que foram supostamente passados para trás por Mark que para atingir os seus objetivos foi capaz de passar por cima de seu único amigo (o brasileiro Eduardo Savarin) e os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss que o contrataram para a construção de um site de relacionamentos exclusivos para alunos de Harvard.

A Rede Social é contado a partir de uma montagem interessantíssima – nesse aspecto sim, uma das melhores coisas do ano – e em cima de um grande paradoxo que fica estampado nos cartazes do filme (“Você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”). O paradoxo de uma pessoa solitária criar uma rede social que rapidamente conecta-se a milhões de pessoas. A montagem de Kirk Baxter e Angus Wall se faz peça essencial para a boa qualidade do filme, é essa montagem que consegue prender o espectador à primeira vista. Como fazer com que gostem de um filme em que o personagem principal não é o carismático?

A frieza do roteiro e dos personagens distanciam o público da história. Basicamente o que a tecnologia e as redes sociais fazem. E aí está mais um paradoxo: como algo que foi criado para maior interação do ser humano acaba distanciando mais os relacionamentos tornando as relações menos palpáveis a cada novo boom tecnológico? Algo que foi tratado muito melhor e com mais sutileza no ano passado por Jason Reitman. E em Amor Sem Escalas não há interrogações, mas há também a frieza. Em A Rede Social a frieza é de Fincher o que deixa o espectador desconfortável. Ou não, há casos (não raros) que a mesma frieza proposital pode funcionar muito para o espectador, vou além, o time que idolatra esse filme faz isso justamente por essa condução extremamente fria e que a fotografia até ajuda a criar um clima sombrio.

A trilha sonora é apropriada. Apenas em alguns momentos faz falta pela monotonia em certos acordes. Nenhuma atuação está abaixo da média; Jesse Eisenberg e Andrew Garfield estão ótimos, esse último principalmente está bem em cada cena. Consegue ser dramático e cômico num equilíbrio impressionante. Jesse nunca fica apagado quando divide a cena mesmo que não seja a melhor atuação do filme. Alguns poderão sair do cinema admirados com a mente do “criador” do Facebook; outros, porém, irão repudiar sua empreitada bilionária. Porém ninguém sairá do cinema sem ter visto um bom - e superestimado - filme.

A Rede Social
(The Social Network, EUA, 2010)
Direção: David Fincher Roteirista: Aaron Sorkin Elenco: Jesse Eisenberg, Rooney Mara, Bryan Barter, Dustin Fitzsimons, Joseph Mazzello, Patrick Mapel, Andrew Garfield, Toby Meuli, Alecia Svensen, Calvin Dean, Jami Owen, James Dastoli, Robert Dastoli. Drama. 121 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, direção, ator (Jesse Eisenberg), roteiro adaptado, fotografia, montagem, trilha sonora, mixagem de som

Um comentário:

  1. Naum sei se A Rede Social é menos ousado...Como bem escreveu no início da resenha, o ego de Fincher sempre esteve presente em alguns filmes de Clube da Luta pra cá, em especial O Curioso Caso de Benjamin Button, este sim um filme feito para a Academia ver, A Rede Social o liberta destas amarras e é simplesmente arrebatador pelos caminhos q conduz o público. Naum é a mera narrativa sobre a fundação do Facebook, tampouco somente um estudo de personagem, traz reflexões profundas sobre as características de uma geração, sobre relações sociais...

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