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24 de fev. de 2011

127 Horas (2010)

Um jovem bem sucedido larga tudo e parte sozinho para ir viver uma aventura na natureza, não informando a ninguém aonde vai ou quando volta pra casa. A premissa de 127 horas me faz lembrar o personagem de Emile Hirsch em Natureza Selvagem, mas os filmes seguem caminhos bem distintos e cada um tem suas qualidades.

127 horas é mais um filme claustrofóbico que mergulha na mente de um ser humano consumido pelo desespero de querer sobreviver. O mais recente filme do gênero Enterrado Vivo foi além de cumprir seu papel. É um grande desafio manter o público com os olhos fixos na tela de um filme que teoricamente se passa em um cenário. Para evitar o tédio Danny Boyle interpola as cenas entre flashbacks e alucinações do personagem. Algo necessário já que o filme não é completamente claustrofóbico e tem seu primeiro ato com um Aron Ralston “livre”. O principal objetivo que o filme quer alcançar só começa quando o título surge. Se o público foi apresentado a um personagem que podia se deslocar para qualquer lugar, restringir esse personagem é algo repentino e forçado, por isso o uso constante dos flashbacks. Boyle, porém usa isso muito bem a seu favor nos momentos certos e necessários.

Preenchendo cenas também com a ótima trilha sonora de A. R. Rahman, 127 horas carrega seu espectador ao desespero muito pelo extremo realismo que Boyle entrega seu longa. Repetindo parcerias, além do compositor Rahman, o diretor trabalha novamente com o roteirista Simon Beaufoy e o fotógrafo Anthony Dod Mantle (trabalhando junto com Enrique Chediak), a diferença mais notável da equipe técnica é o editor Jon Harris e a menção ao Oscar é completamente necessária e não surpreenderia se vencesse essa categoria.

A montagem de 127 horas é tão espetacular que pode ser, depois da direção, o que mais agrada na produção. Óbvio que o grande carisma de James Franco influencia isso também. Sua atuação é ótima sendo bem convincente principalmente em momentos de desespero do personagem. É notável o quanto ele foi dedicado ao papel de Aron, o quando ele transforma a trama factual. Danny Boyle que não tem medo de ousar, prova disso é na cena mais chocante do filme, onde montagem, trilha sonora, atuação e direção funcionam tão perfeitamente que dão esperança para o cinema aos cinéfilos. Um trabalho tão espetacular de direção não deveria ser tão ignorado. Trata-se de um filme feito porque evidentemente faz cinema por amor. 127 horas é a certeza de que o ousado quase sempre funciona e não há nenhuma restrição, nenhum medo, só a vontade de fazer um grande filme. E bom que essa vontade se concretiza.


127 Horas
(127 Hours, EUA, Inglaterra, 2010)
Direção: Danny Boyle Roteiro: Danny Boyle, Simon Beaufoy Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Sean A. Bott, Clémence Poésy. Biografia / Drama. 94 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, ator (James franco), roteiro adaptado, montagem, trilha sonora, canção original (If I Rise)

22 de fev. de 2011

O Vencedor (2010)

O maior problema de O Vencedor surge antes mesmo de você ver o filme: o pré-conceito. Surge a pergunta de quantas vezes já vimos uma história como essa. Rocky – Um Lutador e cia., Ali, A Luta pela Esperança, Menina de Ouro e claro Touro Indomável. E é importante que o espectador não vá ao cinema achando que verá o novo Touro Indomável do século. Justamente por ser uma história tão tratada no cinema é inevitável que haja comparações. Mas comparar com o filme de Scorsese é até covardia.

O tema atrai muitos cineastas. Os boxeadores são vencedores em cima do ringue e fracassados quando descem. É tipico que a maior moral do longa seja superação, apesar de que os conflitos com a família passem as principais mensagens do filme. O Vencedor carrega o espectador a um desfecho óbvio e otimista, afinal não faria sentido o título do filme. Nem por esse apelo previsível o roteiro chega a decepcionar. Ok, ninguém sai deslumbrado da sessão, nem tampouco revoltado, porque o filme simplesmente não fede nem cheira e vai envelhecer muito bem por conta do elenco.

Não se pode poupar elogios ao elenco. Um time formidável de atores faz valer a pena a ida ao cinema. É Christian Bale que domina as cenas quando aparece; o papel de Mark Wahlberg não pede muito esforço e, portanto, o seu desempenho não decepciona. Bale, por outro lado, foi privilegiado com um personagem egoísta (embora simpático) e viciado em crack outrora um bom lutador de boxe que ganhou prestígio de uma vitória acidental em uma luta. E com essa fama baseada numa mentira Dicky torna-se uma figura que o irmão mais novo Micky (Wahlberg) procura seguir.

Micky poderia ter uma carreira brilhante não fosse o sufoco que seu irmão e sua mãe Alice (Melissa Leo) o submetem e acham que o melhor para Micky é está com a família. O que faz o lutador acordar é seu envolvimento com Charlene (Amy Adams) que age muitas vezes como sua porta-voz. É assim que notamos um Micky recluso, com vergonha de seguidos fracassos e com medo de largar sua família. E isso fica mais explícito numa cena em especial quando Micky vai anunciar Charlene e ela segura seu braço, como se o protegesse de sua própria família. É ótimo ver Adams e Wahlberg atuando juntos; são os momentos que mais vemos o potencial de ambos.

A força da atuação de Amy Adams está no olhar (ora recluso, ora desafiador), ela é capaz de dizer tantas coisas com aqueles belos olhos azuis que a presença de diálogo nesses momentos é até desnecessária. Melissa Leo vem com outra excelente atuação feminina do filme, seus exageros e sua futilidade causam uma mescla de antipatia e risos. Sua personagem é uma descarada ironia à sociedade. É uma pena a atriz ter se rebaixado tanto para chamar atenção dos votantes da Academia...

A eficaz direção de David O. Russell não segura sozinho as falhas do roteiro e nem o suporte do elenco tapam esses furos. Russell usa belas e simples tomadas que surpreendem quem vai ao cinema esperando apenas boas atuações de seu filme. E isso ele estampa logo no inicio da projeção com a câmera seguindo Wahlberg asfaltando a rua enquanto Bale narra uma de suas lutas. A trilha vai de The Rolling Stones, Led Zeppelin até Red Hot Chili Peppers na ótima Strip My Mind. Vendo tudo em seu contexto faz temos certeza que não há apenas um vencedor ali, todos eles são.


O Vencedor
(The Fighter, EUA, 2010)
Direção: David O. Russell
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, Mickey O'Keefe, Jack McGee. Drama / Esporte. 114 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, direção (David O. Russell), ator coadjuvante (Christian Bale), atriz coadjuvante (Melissa Leo), atriz coadjuvante (Amy Adams), roteiro original, montagem.

14 de fev. de 2011

Minhas Mães e Meu Pai (2010)

É normal criar expectativas quando vemos o cartaz, o título, a sinopse, ou o nome das pessoas envolvidas em um filme. Podem ser expectativa positivas ou negativas. Afinal esse é o jeito que nos interessamos pelas produções, embora seja interessante conferir uma obra sem ter conhecimento do que se trata ou quem está dirigindo ou produzindo. Surpreender ainda faz parte da magia do cinema. Outra coisa que desperta interesse são os comentários à respeito do filme. Quando a recepção é calorosa por maior parte dos críticos e cinéfilos já iniciamos o filme esperando muito dele o que é um grande erro.

Por isso é sempre bom ter o pé atrás para todos os filmes que for ver. Mesmo que seja de seu cineasta favorito, nunca se deve opinar sobre algo que não se viu. Pode até parecer clichê – e realmente é –, ou pode até ser que os personagens sejam clichês – e são mesmo –, porém é impossível não se apegar à condução do roteiro de Minhas Mães e Meu Pai (título nacional que soou apropriado). E daí se todo mundo adivinha o que vai acontecer na trama quando o personagem de Mark Ruffalo entra em cena? Este filme merece ser visto pelas ótimas atuações da dupla Annette Bening e Julianne Moore em excelentes personagens. E como é bom ver as duas em cena...

A tímida adolescente que está prestes a ingressar na universidade e está de saco cheio dos cuidados das mães; o outro adolescente rebelde e sem causa que anda com um amigo babaca para se sentir importante ou superior (vai saber). Alguém pode até achar que seja uma família inusitada , por ser matriarcal, mas de inusitado o filme não tem nada. Uma etiqueta perfeita para por na prateleira de Minhas Mães e Meu Pai, seria CLICHÊ, em letras bem grandes. Até o playboy descolado que pega todas e anda de moto está lá.

Minhas Mães e Meu Pai é um filme de atuações e não há o que discutir. Direção inovadora ou roteiro surpreendente, nada disso. O elenco sustenta e até supri as falhas mais toleráveis. A direção de Lisa Cholodenko não chama atenção nem tampouco impressiona; sua condução é mecânica, até mesmo restrita. Porém é possível que este seja o guilty pleasure do ano passado, já que há algo inexplicável no filme que agrada bastante. Talvez seja o carisma gigantesco de cada personagem.

O que chega a cansar no longa é a montagem desleixada e amadora. Algo que não traz nenhuma característica especial ou positiva ao filme. Pelo contrário, mora aí o maior problema que causa antipatia dos espectadores. Pra quem admira Juliane Moore, Annette Bening ou até Mark Ruffalo é capaz de esquecer dos defeitos do filme. E quem os culpa?


Minhas Mães e Meu Pai
(The Kids Are All Right, EUA, 2010)
Direção: Lisa Cholodenko Roteiro: Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson. Comédia/Drama. 106 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, atriz (Annette Bening), ator coadjuvante (Mark Ruffalo), roteiro original.

10 de fev. de 2011

Cisne Negro (2010)


O que esperar de Darren Aronofsky depois de sua empreitada em O Lutador? O filme mais deslocado de sua filmografia foi certamente um grande baque para quem já estava se acostumando a ver seus dramas psicológicos atraentes e sufocantes. O Lutador é a exceção de Aronofsky dotado de um estilo mais autoral, ainda que ousado e impactante.

A busca pela perfeição é tema constante em Cisne Negro, seu novo e aguardado filme. Darren entrega um filme intenso, atraente e magistralmente bem conduzido. É mais um daqueles filmes que buscamos infinitos meios de elogiá-lo. É preciso até ter cuidado para elogiá-lo adequadamente. Cisne Negro é uma daquelas obras que você sente obrigação de rever quantas vezes for necessário

O filme tem um inicio que tenta preparar o espectador para o que virá a seguir, mas mesmo assim é impossível não sentir sua paz perturbada pelos sofrimentos e anseios de Nina. Construído de uma forma impecável, a personalidade de Nina é ambígua propositalmente. O que presenciamos é como sua obsessão pela perfeição afeta sua vida e como o tratamento sufocante de sua mãe a atrasa. Quando é apenas Nina ela fica tão perdida quanto quem está encarando boquiaberto à projeção. Não que a confusão, se é que existe confusão, atrapalhe a apreciação. Aronofsky gosta de brincar com quem assiste a seus filmes, gosta de pisar em seus personagens para que em nenhum momento você sinta que está tudo bem.

O perfeccionismo extremo leva à paranoia de Nina; vemos que aos poucos ela se liberta tornando-se mais madura conforme vai mergulhando em seu universo obscuro. Seu grande problema é justamente esse: procurando pela perfeição ela acaba encontrando seu defeito. O cisne negro não exige tamanho controle. No início Nina parece uma garotinha de 12 anos e sua mudança ou ascensão é algo compreensível, supõe-se que o cisne negro sempre esteve presente e em seu momento mais vulnerável ele se manifestou.

Seu desafio é transparecer para o cisne negro a sensualidade que não tem. O fato de ser meiga só favorece seu desempenho como cisne branco e é Thomas e Nina que servem teoricamente como válvula de escape para essa libertação. Apenas conhecendo os prazeres sexuais ela poderia seduzir e ser o cisne negro tão bem quanto o cisne branco.

A técnica conhecida de Aronofsky é bem evidente. Aqui ele usa tomadas como em O lutador: mantém a câmera atrás da protagonista como se você fizesse parte daquilo, mais até, como se você fosse o próprio protagonista. E não é difícil se entregar ao filme. A elegância do balé é tão atraente, junto aos movimentos e a trilha sonora fantástica de Clint Mansell que de cara já sentimos um impacto tão agradável que é extremamente difícil colocar em palavras.

Sob a composição de Nina’s Dream a cena inicial já deixa claro o potencial do longa. Mas é com Opposites Attract que temos uma das cenas mais excitantes do filme mostrando a extrema sincronia que a trilha sonora tem com a projeção. Mesmo que a trilha possua compreensivelmente muito de O Lago dos Cisnes não se pode deixar de ovacionar Clint Mansell por suas composições.

E os espelhos estão presentes como meio de contar a história. Os espelhos são essenciais, tanto para construir o clima tenso e pesado quando para revelações. Esses reflexos tornam-se obrigatórios para a trama principalmente nos vinte minutos finais em que Aronofsky usa tomadas avassaladoras. Darren impressiona mesmo que não surpreenda na direção de seus coadjuvantes. Mila Kunis tão natural e à vontade em seu papel; Vincent Cassel tão elegante transparecendo a experiência e sensualidade; Barbara Hershey banalizada injustamente nas premiações foi certamente a maior surpresa no elenco, pois já era aguardado uma excelente atuação de Natalie Portman. A proteção exagerada da mãe de Nina é o que mais privava a personagem da libertação. Não esqueçamos também a curta participação de Winona Ryder dividindo com Portman uma das cenas mais chocantes do longa. Todos os holofotes são para Natalie Portman com muito merecimento.

Cisne Negro é sobre uma batalha interna contado de uma forma sombria e num ritmo fantástico. Até chegar ao ápice da perfeição (que é o ato final) quem está assistindo pensa que não pode ser melhor. Do prólogo até o epílogo Cisne Negro consegue ser perfeito e nesse caso a busca pela perfeição de Aronofsky não encontra nenhum erro. Creio que não seja em necessário comentar sobre a montagem e a fotografia quando esses dois aspectos se restringem a um simples adjetivo. No final, quando já estamos devastados, não é Nina que você grita repetidas vezes. É Natalie Portman.

Cisne Negro
(Black Swan, EUA, 2010)
Direção: Darren Aronofsky Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John McLaughlin Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder. Drama/Suspense. 108 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, direção (Darren Aronofsky), atriz (Natalie Portman), montagem, fotografia.

16 de jan. de 2011

A Origem (2010)


"Uma ideia é como um vírus. Resistente. Altamente contagioso. A menor semente de uma ideia pode crescer para definir ou destruir você. As menores ideias como... 'Seu mundo não é real'. Um simples pensamento que muda tudo."

A Origem é um filme poderoso em todos os aspectos, assim como todos os outros de Christopher Nolan. De maneira simples e sem exageros seus filmes tornam-se eternos. De maneira “simples” porque Nolan preza pelo cinema tradicional e é tachada de excêntrico por causa disso. Por quase não usar efeitos digitais em seus longas ele aproxima a ficção da realidade. É basicamente isso que ele faz em A Origem, deixa um sonho real. E eles não são reais enquanto sonhamos?

Sonho VS Realidade. A luta constante enfrentado por Cobb (Leonardo DiCaprio, em uma inspirada atuação) e rodada sob uma montagem cuidadosa. E é preciso muito cuidado mesmo para montar um filme que se passa em várias camadas do subconsciente humano. Mas Lee Smith é tão brilhante em sua montagem que torna tudo um espetáculo (vide a sequência do chute no ato final). Todo cinéfilo sai todo sorridente quando termina de ver um filme como este. A excitação sede espaço também para os diversos questionamentos levantados durante a projeção. Daí a vontade de rever, afinal todo mundo quer tirar suas dúvidas. Isso porque a última cena é tão impactante que deixa o espectador pensando nela por dias a fio. Alguns podem até dizer que A Origem caminha para um final óbvio demais. Porém, sendo ou não, é a técnica utilizada por Christopher Nolan que certamente causa o impacto, claro que a bela trilha sonora de Hans Zimmer também aumenta a tensão.

Nolan já é querido pelos cinéfilos há muito tempo e a cada novo trabalho, torna-se impossível não admirar mais o seu estilo. A trama de A Origem é arriscada, mas o roteiro assinado pelo próprio diretor molda uma estória complexa de uma forma tão avassaladora que durante as mais de duas horas e meia de projeção só sentimos vontade de conhecer mais de sua ideia. Sim, tudo gira em torno de uma ideia. Uma simples ideia que pode construir cidades! Pelo menos é de onde parte o argumento de Nolan.

E ele coletou ideias de vários artistas. As obras paradoxais do pintor M. C. Escher; o filme francês O Ano Passado em Marienbad (1961), que Nolan brinca dizendo que a diferença entre os dois filmes é que o seu têm muitas explosões. O cineasta diz que também se inspirou em Stanley Kubrick e Ridley Scott. Tanta informação pode deixar o espectador confuso em certos momentos. Os personagens dão muitas informações naturalmente, pois há uma novata na equipe (Ariadne, interpretada por Ellen Page) que está ali como se fosse o próprio espectador, cheio de dúvidas. Ariadne, como na mitologia grega que resgata o amado Teseu do labirinto com um novelo de lã. A ironia de Nolan na personagem vai além e como totem a personagem tem um peão do xadrez. Simplesmente genial.

Sobre o elenco não se deve economizar nos elogios. Pouco espaço na tela não deve ser sinônimo de má atuação em nenhuma das hipóteses. Temos aqui um Leonardo DiCaprio atormentado e cheio de remorso; Joseph Gordon-Levitt um sujeito amadurecido que é até difícil acreditar que é o mesmo apaixonado iludido de (500) dias com ela, Ellen Page é uma curiosa e talentosa arquiteta. Mas entre todos os demais coadjuvantes Marion Cotillard é destaque com sua psicótica e egoísta Mal. Até mesmo Michael Caine em seus pouco mais de cinco minutos em cena consegue transpor uma elegância irresistível na grande tela. O elenco, tão bem escalado, conta também com Tom Hardy, Cillian Murphy, Ken Watanabe e Tom Berenger. Cada um em seu devido lugar.

É impressionante. Cada segundo. A expectativa de querer saber o que virá a seguir nem se compara à agonia de achar que pensava que tudo estava solucionado e levar um banho de água fria com a última sequência. É obrigatório mais de uma revisão.

A Origem
(Inception, EUA, Inglaterra, 2010)
Direção: Christopher Nolan Roteiro: Christopher Nolan Elenco: Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine. Ação/Ficção. 148 min.
TRAILER LEGENDADO HD

Indicações ao Oscar: filme, roteiro original, direção de arte, fotografia, efeitos visuais, trilha sonora, edição de som, mixagem de som

30 de dez. de 2010

A Rede Social (2010)

Recentemente revi Clube da Luta (1999) – o quarto filme do americano David Fincher que começou no cinema com a ficção científica Alien 3 (1992) – e constatei: esse é realmente uns dos melhores filmes da década passada. Seu filme contemporâneo, explosivo e empolgante fizeram os críticos e cinéfilos prestarem mais atenção no cineasta que já surpreendera com o ótimo Se7en - Os Sete Crimes Capitais (1995). Foi com O Curioso Caso de Benjamin Button que o cineasta entrou nas premiações mais importantes do mercado. O filme recebeu 11 indicação ao Oscar, mas a Academia não resistiu aos encantos de Quem Quer Ser Um Milionário?

Dois anos após o lançamento de Benjamin Button saio do cinema depois da sessão do novo filme de David Fincher sem me decepcionar. O interessante A Rede Social deixa a impressão que Fincher deve ter o ego grande e está louco para ser premiado pela academia. Fincher se entregou à ambição das produtoras de cinema? Seria errado apostar que seus próximos trabalhos terão um grande apelo comercial mesmo que acabem sendo películas de qualidade? Não é o que o Spielberg faz hoje?

Logo no começo da trama escrita por Aaron Sorkin com base no livro de Ben Mezrich o espectador já se apega a uma antipatia por Mark Zuckerberg. Na tela ele é o cara que tem passos apressados e mistura assuntos enquanto fala rapidamente; pouco se importa com relacionamentos e isso fica evidente também no início do longa. Ou seja, ele tem um perfil de um gênio: excêntrico, perfeccionista e, principalmente, egoísta. No entanto essa imagem que construímos ao longo da projeção some no último diálogo, em seu lugar fica a interrogação. Mark Zuckerberg é mesmo o vilão ou ele quer que todos os holofotes estejam nele? Pior, será que ele é realmente um ladrão de ideias? E fica nessa de tentar entender a personalidade ambígua de Mark.

Sem a aprovação do Mark real, sua versão é desconhecida e o filme caminha à base de incertezas, mas David Fincher se revela um mestre em dirigir essas incertezas. A Rede Social narra a versão dos que foram supostamente passados para trás por Mark que para atingir os seus objetivos foi capaz de passar por cima de seu único amigo (o brasileiro Eduardo Savarin) e os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss que o contrataram para a construção de um site de relacionamentos exclusivos para alunos de Harvard.

A Rede Social é contado a partir de uma montagem interessantíssima – nesse aspecto sim, uma das melhores coisas do ano – e em cima de um grande paradoxo que fica estampado nos cartazes do filme (“Você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”). O paradoxo de uma pessoa solitária criar uma rede social que rapidamente conecta-se a milhões de pessoas. A montagem de Kirk Baxter e Angus Wall se faz peça essencial para a boa qualidade do filme, é essa montagem que consegue prender o espectador à primeira vista. Como fazer com que gostem de um filme em que o personagem principal não é o carismático?

A frieza do roteiro e dos personagens distanciam o público da história. Basicamente o que a tecnologia e as redes sociais fazem. E aí está mais um paradoxo: como algo que foi criado para maior interação do ser humano acaba distanciando mais os relacionamentos tornando as relações menos palpáveis a cada novo boom tecnológico? Algo que foi tratado muito melhor e com mais sutileza no ano passado por Jason Reitman. E em Amor Sem Escalas não há interrogações, mas há também a frieza. Em A Rede Social a frieza é de Fincher o que deixa o espectador desconfortável. Ou não, há casos (não raros) que a mesma frieza proposital pode funcionar muito para o espectador, vou além, o time que idolatra esse filme faz isso justamente por essa condução extremamente fria e que a fotografia até ajuda a criar um clima sombrio.

A trilha sonora é apropriada. Apenas em alguns momentos faz falta pela monotonia em certos acordes. Nenhuma atuação está abaixo da média; Jesse Eisenberg e Andrew Garfield estão ótimos, esse último principalmente está bem em cada cena. Consegue ser dramático e cômico num equilíbrio impressionante. Jesse nunca fica apagado quando divide a cena mesmo que não seja a melhor atuação do filme. Alguns poderão sair do cinema admirados com a mente do “criador” do Facebook; outros, porém, irão repudiar sua empreitada bilionária. Porém ninguém sairá do cinema sem ter visto um bom - e superestimado - filme.

A Rede Social
(The Social Network, EUA, 2010)
Direção: David Fincher Roteirista: Aaron Sorkin Elenco: Jesse Eisenberg, Rooney Mara, Bryan Barter, Dustin Fitzsimons, Joseph Mazzello, Patrick Mapel, Andrew Garfield, Toby Meuli, Alecia Svensen, Calvin Dean, Jami Owen, James Dastoli, Robert Dastoli. Drama. 121 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, direção, ator (Jesse Eisenberg), roteiro adaptado, fotografia, montagem, trilha sonora, mixagem de som

2 de set. de 2010

Direito de Amar (2009)


É extremamente raro você se deparar com um filme como Direito de Amar (cuja tradução literal seria "Um Homem Solteiro" e seria, sim, mais apropriado). Quando o filme acaba você fica sem argumentos para tentar derrubá-lo, se por acaso sua vontade for de derrubá-lo. Se o fato de ser melancólico é um defeito para alguns eu não sei, mas essa melancolia é indispensável para que a história tão devastadora seja contada. Em todos os sentidos a melancolia está presente. Principalmente na trilha sonora carregada do polonês Abel Korzeniowski.

O que mais chama atenção é toda a experiência que um estreante pode ter nesse ramo. Tom Ford, conhecido por seu trabalho no ramo da moda, assina seu primeiro longa-metragem. E parece satisfeito com o resultado, com razão. O novo cineasta é entrega um filme que contem a melhor atuação do ano: Colin Firth, em um papel à altura de seu talento. Sua fantástica atuação é o que há de mais avassalador no longa. Durante toda a projeção observamos com um aperto no peito a dor que o personagem de Firth sofre e a sensação é agonizante. Uma pena Colin Firth ter perdido as principais premiações, inclusive o Oscar para Jeff Bridges (que não deixou de merecer).

Obviamente, a única coisa que um espectador tem que fazer é assistir, em nada pode interferir na ficção. Ford joga na tela de um jeito que não seja apelativo um sofrimento interminável, chega até ser cômico assistir os momentos de solidão de George. Tudo o que faz lembrar o seu passado deixa os olhos fixos na tela. Tudo o que você precisa fazer é sofrer junto com ele. Está nos olhos dele, quando recebe uma ligação. Sua expressão é de espontaneidade; aos poucos essa fisionomia vai esfriando, quando você se dá conta já está perplexo, e talvez esteja até chorando junto com aquele personagem magnífico. É tudo muito repentino, portanto não pisque.

A equipe escolhida a dedo não deixa a desejar em nenhum momento sequer. O fotógrafo Eduard Grau deixa as cenas mais bonitas e muito mais atraentes. Usa em alguns momentos a fotografia em preto e branco. E Tom Ford parece só querer pessoas belas em seu elenco, até quem nem tem nenhuma fala. As cenas são tomadas por Colin Firth, mas os coadjuvantes também conseguem ter seu espaço. Julianne Moore, por exemplo, além de bela, está inteiramente entregue à sua pequena personagem. Nada que surpreenda quem já acompanha e gosta de seu trabalho.

Porém há algo que me incomoda. Essa obsessão pela perfeição beira ao surrealismo. Uma câmera meio desleixada uma vez aqui e outra acolá me faz uma falta danada na projeção. Posso estar procurando defeitos onde não têm. Ou implicando demais com um filme que só é preciso dizer o quanto ele é bom, mas penso que o cinema moderno segue menos as métricas convencionais, talvez isso explique a estranheza inicial. Que seja, Direito de Amar é ótimo e ponto!


Direito de Amar
(A Single Man, EUA, 2009)
Direção: Tom Ford Roteiro: Tom Ford, Christopher Isherwood, David Scearce Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode, Jon Kortajarena, Paulette Lamori, Ryan Simpkins, Ginnifer Goodwin, Teddy Sears, Paul Butler. Drama. 101 min.