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10 de fev de 2011

Cisne Negro (2010)


O que esperar de Darren Aronofsky depois de sua empreitada em O Lutador? O filme mais deslocado de sua filmografia foi certamente um grande baque para quem já estava se acostumando a ver seus dramas psicológicos atraentes e sufocantes. O Lutador é a exceção de Aronofsky dotado de um estilo mais autoral, ainda que ousado e impactante.

A busca pela perfeição é tema constante em Cisne Negro, seu novo e aguardado filme. Darren entrega um filme intenso, atraente e magistralmente bem conduzido. É mais um daqueles filmes que buscamos infinitos meios de elogiá-lo. É preciso até ter cuidado para elogiá-lo adequadamente. Cisne Negro é uma daquelas obras que você sente obrigação de rever quantas vezes for necessário

O filme tem um inicio que tenta preparar o espectador para o que virá a seguir, mas mesmo assim é impossível não sentir sua paz perturbada pelos sofrimentos e anseios de Nina. Construído de uma forma impecável, a personalidade de Nina é ambígua propositalmente. O que presenciamos é como sua obsessão pela perfeição afeta sua vida e como o tratamento sufocante de sua mãe a atrasa. Quando é apenas Nina ela fica tão perdida quanto quem está encarando boquiaberto à projeção. Não que a confusão, se é que existe confusão, atrapalhe a apreciação. Aronofsky gosta de brincar com quem assiste a seus filmes, gosta de pisar em seus personagens para que em nenhum momento você sinta que está tudo bem.

O perfeccionismo extremo leva à paranoia de Nina; vemos que aos poucos ela se liberta tornando-se mais madura conforme vai mergulhando em seu universo obscuro. Seu grande problema é justamente esse: procurando pela perfeição ela acaba encontrando seu defeito. O cisne negro não exige tamanho controle. No início Nina parece uma garotinha de 12 anos e sua mudança ou ascensão é algo compreensível, supõe-se que o cisne negro sempre esteve presente e em seu momento mais vulnerável ele se manifestou.

Seu desafio é transparecer para o cisne negro a sensualidade que não tem. O fato de ser meiga só favorece seu desempenho como cisne branco e é Thomas e Nina que servem teoricamente como válvula de escape para essa libertação. Apenas conhecendo os prazeres sexuais ela poderia seduzir e ser o cisne negro tão bem quanto o cisne branco.

A técnica conhecida de Aronofsky é bem evidente. Aqui ele usa tomadas como em O lutador: mantém a câmera atrás da protagonista como se você fizesse parte daquilo, mais até, como se você fosse o próprio protagonista. E não é difícil se entregar ao filme. A elegância do balé é tão atraente, junto aos movimentos e a trilha sonora fantástica de Clint Mansell que de cara já sentimos um impacto tão agradável que é extremamente difícil colocar em palavras.

Sob a composição de Nina’s Dream a cena inicial já deixa claro o potencial do longa. Mas é com Opposites Attract que temos uma das cenas mais excitantes do filme mostrando a extrema sincronia que a trilha sonora tem com a projeção. Mesmo que a trilha possua compreensivelmente muito de O Lago dos Cisnes não se pode deixar de ovacionar Clint Mansell por suas composições.

E os espelhos estão presentes como meio de contar a história. Os espelhos são essenciais, tanto para construir o clima tenso e pesado quando para revelações. Esses reflexos tornam-se obrigatórios para a trama principalmente nos vinte minutos finais em que Aronofsky usa tomadas avassaladoras. Darren impressiona mesmo que não surpreenda na direção de seus coadjuvantes. Mila Kunis tão natural e à vontade em seu papel; Vincent Cassel tão elegante transparecendo a experiência e sensualidade; Barbara Hershey banalizada injustamente nas premiações foi certamente a maior surpresa no elenco, pois já era aguardado uma excelente atuação de Natalie Portman. A proteção exagerada da mãe de Nina é o que mais privava a personagem da libertação. Não esqueçamos também a curta participação de Winona Ryder dividindo com Portman uma das cenas mais chocantes do longa. Todos os holofotes são para Natalie Portman com muito merecimento.

Cisne Negro é sobre uma batalha interna contado de uma forma sombria e num ritmo fantástico. Até chegar ao ápice da perfeição (que é o ato final) quem está assistindo pensa que não pode ser melhor. Do prólogo até o epílogo Cisne Negro consegue ser perfeito e nesse caso a busca pela perfeição de Aronofsky não encontra nenhum erro. Creio que não seja em necessário comentar sobre a montagem e a fotografia quando esses dois aspectos se restringem a um simples adjetivo. No final, quando já estamos devastados, não é Nina que você grita repetidas vezes. É Natalie Portman.

Cisne Negro
(Black Swan, EUA, 2010)
Direção: Darren Aronofsky Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John McLaughlin Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder. Drama/Suspense. 108 min.

Indicações ao Oscar 2011: filme, direção (Darren Aronofsky), atriz (Natalie Portman), montagem, fotografia.

11 comentários:

  1. A obra-prima de 2010,Aronofsky usa todos os elementos cinematográficos a seu favor (o som e sua mixagem são formas brilhantes de contar sutilmente detalhes menores da história) e o resultado é encantador. A cena do Cisne Negro é de tirar o fôlego e Portman brilha!!!

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  2. Deixa eu começar dizendo que adorei o visual dos seus indicados ao Tulipa de Ouro, parabéns mesmo, me senti diante de uma TV, acompanhando o diretor da Academia e algum artista famoso anunciando os nomeados ao Oscar! :)
    Segundo, Black Swan, é como disse Cleber, a obra-prima de 2010. Impressionante como este filme funciona bem - desde O Retorno do Rei não me sinto tão impactado por um filme... É brilhante, em todos os sentidos... Muitos mereciam o Oscar aqui, não apenas Portman - e como me irrita terem esquecido de Barbara Hershey, Mila Kunis e Vincent Cassel, todos formidáveis!

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  3. Acho fantástica a cena do Cisne Negro também, Cleber. E sim, também concordo que é a obra-prima do ano.

    Obrigado, Weiner, foi feito com muito cuidado. E sim, não apenas Portman merece ser ovacionada mas todo o conjunto: os coadjuvantes e a equipe técnica além, é claro dop gênio Aronofsky e os roteiristas.

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  4. Um filme excelente e perturbador. O melhor da safra do Oscar 2011, até agora. Pena que não deve ganhar muitas estatuetas, com a exceção do merecido prêmio para a Natalie Portman.

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  5. È de tirar o fôlego e consegue mostrar os bastidores do balé, com aquela rivalidade e pressão física e mental, não somente a parte perfeita das danças. E a Natalie brilha aqui. ;)

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  6. Gostei da análise dos espelhos, uma sacada legal no teu texto. Enfim, todos parecem ter se rendido ao poder hipnotizante de Aronofsky. Sensacional.

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  7. É realmente uma pena, Kamila, mas o prêmio que levará certamente é o mais merecido.

    Mayara, achei super interessante o que Aronofsky explorou em seu filme. E todos concordam que Natalie brilha.

    Obrigado, Luis. Eu, pelo menos, me rendi sem medo ao poder desse filme logo nos minutos finais ao som de Nina's Dream.

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  8. Um filme realmente perturbador, inquietante e FANTÁSTICO!

    Merece todos os elogios! Aronofsky arrebentou, assim como a Portman!!! Melhor filme de 2011 até agora! Gostaria também que tivesse mais destaque no Oscar, junto com A Origem. Mããssss... o tempo fará isso.

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  9. Rafael, tem um selo pra você no meu blog! Assim que possível, passe lá e dê uma olhada, ok? Abraço!

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  10. Belo texto! Ainda não vi, mas é o meu favorito no Oscar, por Portman, que eu adoro! Da série: ainda não vi, mas sei que vou gostar, sabe?

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  11. Concordo com tudo, Victor e queria que o filme ganhasse mais destaque no Oscar também assim como A Origem.

    Weiner, como você já deve ter visto eu já comentei que postarei o selo no blog assim que eu puder. :)

    Sei sim, Fabiana eu também me sentia assim antes de ver o filme!

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